O financiamento social e a responsabilidade económica por Emídio Ferra
- 15 de ago.
- 6 min de leitura
Atualizado: 17 de ago.
Numa década em que o mundo financeiro foi o grande responsável pelo colapso social, económico e de valores, julga-se ter-se encontrado alternativas, mas não identificar os responsáveis.
uma replicação dos modelos ancestrais das trocas entre indivíduos, as interações em 2020, serão marcadas pela flexibilização das relações institucionais no universo financeiro
Quando abordamos o tema da flexibilidade financeira, sentimos um forte impulso de relembrar a interdependência que implica este conceito, com a candura e o cuidado amável que nele se encontra implícito. Só deste modo se poderá contrariar a rigidez e intolerância que marcaram o século passado do mundo financeiro.
Vimos de um paradigma, onde o controlo, a gestão acautelada (mas desastrosa) e as garantias excessivas, associadas ao financiamento de capitais, com vista ao investimento e à criação de riqueza, foram tornando progressivamente, esta área de vital importância para a economia, num instrumento de intolerância, ganância e de corrupção.
A transição para se recuperar as finanças e pô-las a par com a realidade desta década que vivemos, terá de propor um programa consistente de ginástica financeira, onde gradualmente irá ser recuperada a flexibilidade, maleabilidade e elasticidade, ou seja, o sorriso terno e afável, nas relações de trocas e de interajuda.
O dinheiro tornou-se comumente, no sujeito ativo que garante a subsistência dos indivíduos, ao invés de salvaguardar as inter-relações saudáveis entre eles, garantindo desse modo o seu bem-estar e a paz social.
Tal como o amor garante relações de aproximação, de cuidado e afeto nos seres e nas comunidades, protegendo-os das intempéries, as finanças deveriam salvaguardar a justiça, a equidade e o desenvolvimento económico e social.
Na ginástica que propomos é suposto ser fortalecido o musculo financeiro de forma a garantir as necessidades básicas das populações de uma maneira natural.
Para tal, os governos e organismos sociais representantes do poder instituído terão de converter o modo erigido em novos modelos de redistribuição que possam assegurar a equidade a justiça social e a paz mundial.
Naturalmente que este percurso será o de um longo caminho de tentativas e erros, como temos assistido, até que a maturidade humana e das comunidades cedam às verdades que se encontram em seus corações.
Esse percurso também será uma tomada de consciência, da inaceitável assimetria financeira e social e da redistribuição da riqueza desequilibrada.
Ao invés, da via digital e virtual ser o obvio percurso das finanças, e de nesse caminho se perder a supremacia das pessoas, como indivíduos críticos e autónomos, os sinais que se vêm manifestando, nos últimos anos, apontam que a o dinheiro se reaproxime da economia real em paridade com as necessidades das pessoas e de sociedades mais humanizadas. Poder-se-á verificar tais situações na utilização crescente de moedas locais, comunidades de consumo local e de proximidade responsáveis, orçamentos participativos e uma panóplia de novos formatos de financiamento dentro de princípios éticos e amigos da sustentabilidade ambiental, cultural e social.
Tem se verificado, também, a flexibilização dos processos e modelos administrativos, em simultâneo com a crescente imposição de regulação e controlo dos mercados financeiros e de capitais. Podendo ser assim assegurado pelas políticas internacionais que a liberalização monetária, na base das últimas crises financeiras que vivemos, não possa, irresponsavelmente, destruir a vida de milhões de pessoas e famílias, ao conduzi-las para o sobre endividamento e falência, na maioria das vezes, apenas por meros caprichos pessoais ou ganância desenfreada de muito poucos.
Habitualmente o termo de ginástica financeira está associado aos malabarismos que as populações modernas acreditam fazer para gerir os seus salários no período mensal em que lutam desenfreadamente pela sobrevivência e por esticar ao máximo os parcos recursos que acreditam ter aceso.
Na verdade, somos induzidos subconscientemente, pelo marketing e pelos modelos económicos ainda instituídos (mas obsoletos), ao consumo, apenas pelo consumo, de modo compulsivo, irresponsável e inconsciente. São fatores de ordem essencialmente emocional ligados aos instintos e necessidades básicas, mas que na verdade não satisfazem quaisquer necessidades, acabando por induzir ao descontentamento profundo, aumentando por sua vez as carências de consumo para uma satisfação que na verdade se torna insaciável, e que em grande parte dos casos conduz à baixa autoestima, impotência e inevitavelmente à doença (depressão).
Estamos na atualidade a viver um renascimento de valores de base no sentido da vida e da vida em comunidade.
A consciencialização crescente da necessidade de renascidos valores de base, nas sociedades, associados à educação, à família, à alimentação, à habitação, às relações de proximidade com pares e instituições, entre tantas outras, vem permitindo abordar o tema do dinheiro e das conexões financeiras com um novo olhar. É uma visão que é atenta e procura salvaguardar as questões ambientais, culturais, sociais e humanas, baseado na ética e na realidade de cada um, aproximando veementemente os mundos espirituais, emocionais e materiais, numa mesma linha condutora.
Assim, tudo indica que a nova era está presente no nosso dia-a-dia, faltando (praticamente) apenas, tomarmos essa consciência e vivenciar de modo intenso e luminoso a nova realidade da abundância, partilha e equidade.
Precisamos ser céleres na reconversão do nosso modo de estar e ver, para não se perder a fascinante viagem desse doce e fraterno mundo que nos aguarda, onde a flexibilidade financeira será uma realidade cândida e amável, acessível a todos.
A nova era social, que que se instala timidamente em nossas casas, empregos e ecrãs digitais, advém de uma década já superada (assim se espera) de profunda crise financeira, económica, social e de valores.
Esta recente realidade, como bandeira dianteira, tem uma grande promessa: O financiamento social e a responsabilidade económica.
É conveniente, antes de sugerirmos definições ou enquadramento para estes conceitos, procurar entender as causas e consequências que trouxeram à luz esta realidade.
Nos últimos dez anos as sociedades globais atravessaram as profundezas dos calabouços. Nesse negro percurso as estruturas sociais, que se tinham, até então, sustentado em sistemas virtuais e bolhas especulativas, permitiram questionar: O que está errado? Quem são os culpados? O que é verdadeiramente real? Como mudar?
Passo a passo refloresceu coletivamente a busca pelo retorno à vida baseada na proximidade, no sustento da terra e seus recursos naturais, no afeto, no respeito pelos ciclos naturais e pela humanização dos ecossistemas.
Em primeira instância o que se julgava ser o culpado desses negros tempos, o Dinheiro e as Finanças, era excluído pelos inspirados mentores destes movimentos de transição. A finalidade era a pratica em si de exemplos vivos de novos modos de vida: A fundação de comunidades baseadas na partilha, ecologia, permacultura, economia da dádiva e troca, educação livre, sustentabilidade ambiental e social.
Não foi necessário muito tempo para se entender, que não se podia simplesmente voltar as costas a uma construção social globalizada, que em menos de um século de percurso atingiu um crescimento impensável ao longo de toda a sua história. E a recusa de incluir o sistema financeiro, o dinheiro, na nova sociedade era ainda mais irreal e perigoso que os efeitos causados nas grandes crises económicas e financeiras.
Enfim, a realidade tem demonstrado que a mudança não pode acontecer sem os valores vivos e verdadeiros da inclusão, da compaixão, da humildade, do amor próprio e do respeito ao próximo.
Então, daí surge este movimento: O financiamento social e a responsabilidade económica.
Ainda, que no meu parecer, não se possa ainda considerar um conceito, mas sim um movimento em transição, pela busca de soluções credíveis e sustentáveis, construídas no terreno, no dia a dia, e com os dissabores e alegrias como qualquer outro projeto humanizado e inclusivo.
O financiamento social coloca o recurso financeiro ao serviço da sociedade, da economia real e das necessidades das pessoas. A proteção das características nefastas deste recurso, a sua imaterialidade e possibilidade de crescimento infindável, terá de ser controlado pela sua necessária relação direta com a economia real e gradualmente afetar os seus produtos financeiros e virtuais, a projetos de elevado valor social, ambiental, educacional e económico e em paridade com o desenvolvimento desses projetos, serem valorizados e criarem igual valor financeiro.
O financiamento social, para além do dinheiro, incluirá nesta nova era, os recursos técnicos e naturais, como as habilidades, talentos, saberes e ânimo dos empreendedores. Portanto, os agentes ativos da economia, são todos os seres vivos sem quaisquer exclusões, ou seja, a humanidade, os animais, a natureza, o planeta e todos os ecossistemas existentes e as suas inter-relações.
É neste momento que a responsabilidade económica entra e comunga com o financiamento social.
O paradigma do crescimento económico como solução para qualquer sociedade, nada mais é do que converter o bem comum, a harmonia e a saúde do ponto de vista holístico, num caminho para o abismo da competição desenfreada, da solidão e da crise, não no sentido da oportunidade, mas da desolação humana.
Os atores da transição substituirão o crescimento por desenvolvimento económico, no sentido que o crescimento é infindável, sem paridade com a vida e com os recursos naturais enquanto o desenvolvimento económico acompanha a realidade nas suas limitações e vicissitudes.
Portanto, para se atingir a responsabilidade económica, antes de mais de mais é necessário julgar e apurar os responsáveis pela insustentabilidade ecossistémica.
A impunidade e passividade social e política diante dos fatores destrutivos das funções basilares da vida, não permitirá que o processo de transição seja concluído.
A consciencialização destes conceitos e práticas é fundamental para a assunção dos valores associados a esta mudança.
Solidariedade, partilha, inclusão, responsabilidade, alegria, comunicação franca, harmonia e florescimento social e humano, serão a nova bandeira sustentada pelas finanças sociais e responsabilidade económica.
Nome do autor: Emídio Ferra
Descrição Profissional: Consultor em empreendedorismo e inovação
Facebook: https://www.facebook.com/EmpowerToLive
Web site: www.empowertolive.pt


Comentários